Maya estava cansada, quase de noite. Eram quatro dias longe do mar, só queria uma onda. Deitou na prancha e remou, as águas tranqüilas para o típico de Asu, na Indonésia. Marola. Ela se pôs de pé, tentou inclinar o corpo – aí a prancha não estava mais lá, corpo à água; quando a prancha voltou, a borda esbofeteou-lhe o olho, novo caldo e de novo a prancha, quilha contra a cabeça. "Ai!", ela gritou, o corte profundo, sangue, muito sangue.
O médico era surfista, estava perto. Socorreu e chamou o speedy boat,
no barco deu-lhe dois comprimidos de morfina, ela desmaiou, não sabe se
antes ou depois, e acendeu de volta, foi costurada. Cinco pontos – ela
separa os cabelos entre castanhos claros e louros de parafina e mostra
a cicatriz. Aí sorri. Na casa da ilha, colônia de surfistas à noite,
veio a primeira crise. Tremedeira, convulsões, vômito, alívio.
Adormeceu. Acordou na madrugada, a mesma seqüência de corpo dando
resposta à morfina. Dormiu de novo.
Ao longo da semana seguinte, o corpo doído, o mal-estar, a garganta
inflamada. Primeiro tomou um anti-inflamatório, não funcionou. Embarcou
no Amoxil – sempre carrega algumas caixas, antibiótico de largo
espectro que mata meio que tudo. No meio do fim do mundo do Pacífico, a
um dia do aeroporto mais próximo. "Mas sabe, mesmo quando está lá mal
assim e as coisas dão errado, mesmo nessas horas, você sabe que está
aprendendo."
Maya Gabeira ficou 13 meses no exterior, voltou em outubro agora. E
hoje, neste primeiro de dezembro, embarca de volta ao Havaí. Não sabe
quando volta. Da última vez que saiu, não tinha muitos planos, só uma
recomendação dos pais: para a Indonésia não podia ir. Completou 18 anos
em abril e foi. De casa, os pais se afligem. A mãe é estilista, Yamê
Reis. O pai, da última vez que foi visto em destaque nos jornais,
estava derrubando o presidente da Câmara dos Deputados. É Fernando
Gabeira.
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